12 setembro 2019

Precisamos falar corretamente sobre suicídio


Abordagens indevidas sobre casos de suicídio na mídia podem servir de gatilho para mais tentativas

 *Matéria publicada originalmente no jornal laboratório A Catraia Online em setembro de 2017. Vencedora da categoria Destaque Acadêmico no 8° Prêmio de Jornalismo do Ministério Público do Acre


O suicídio é o responsável por mais de um milhão de óbitos anualmente, segundo pesquisa da Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa que a cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio. No Acre a situação também é preocupante. Segundo levantamento realizado pelo Núcleo de Prevenção ao Suicídio do Hospital de Urgências e Emergências de Rio Branco (HUERB), baseado em dados apenas da unidade de saúde e sem levantamentos na regional do Juruá, só em 2017 já foram contabilizados aproximadamente 150 casos de tentativas.
Para a psicóloga Andreia Vilas Boas, coordenadora do Núcleo de Prevenção ao Suicídio do HUERB, é preciso entender que não existe uma causa única para a tentativa de suicídio. “Para cada paciente que atendemos devemos buscar entender a história de vida, os traços de personalidade, a dinâmica familiar, o ambiente social que ele vive, entre outros”. Segundo ela, é necessário entender que o indivíduo com ideação suicida não tem o desejo de morrer, e sim acabar com uma situação de sofrimento vivida.
No Acre, só em julho de 2017 houve um aumento de 62,5% de tentativas de suicídio em comparação ao ano passado. Em agosto houve um aumento de 36,8%, ainda sem dados fechados. Para a psicóloga esse aumento se dá pela forma indevida em que as notícias sobre casos polêmicos tem se espalhado pelos jornais e redes sociais. “Por não seguir as orientações da Associação Brasileira de Psiquiatria e da OMS, a mídia acaba por contribuir para o aumento de casos. As notícias escritas de forma indevida causam impacto e servem de gatilho para quem já está fragilizado com ideação suicida”, afirma. Após a superexposição de um caso polêmico na cidade pode-se perceber esse aumento.
De acordo com Juliana Lofego, jornalista e pesquisadora, a mídia deve falar sobre suicídio, porém com responsabilidade e cuidado. “O ideal é que quando se falar de suicídio, voltar a abordagem à prevenção. Informar onde o indivíduo pode encontrar ajuda”. É desaconselhável divulgar a forma como ocorreu o caso, a divulgação de fotos e cartas, e tentar definir um motivopara o suicídiopois essa abordagem tende a aumentar a quantidade de casos, causando um efeito imitativo ou encorajador. 
Em tempos de redes sociais e comunicação digital, a mídia não se resume apenas à canais de comunicação profissional, o que torna muito difícil a exposição devidada informação. O papel do comunicador, então, é fazer um trabalho consciente com responsabilidade social, trazendo à sociedade formas de vencer a ideação suicida.  É papel da sociedade, além de evitar a viralização de abordagens indevidas, cobrar formas responsáveis de divulgação dos meios de comunicação. “A rede atua nos dois lados, da mesma forma em que ela fala, o receptor também pode se colocar contra esse tipo de abordagem sensacionalista”, finaliza Lofego.
Atendimentos – Em Rio Branco, o HUERB possui um plantão psicológico, que visa receber pacientes que chegam na unidade após tentativa de suicídio, e oferecer apoio e acompanhamento psicológico. Na Ufac existe a clínica do Curso de Psicologia, aberta à sociedade em geral. As inscrições podem ser feitas presencialmente ou através de formulário on-line (http://bit.ly/2wgDUis). Os atendimentos ocorrem no bloco Francisco Bacurau, de segunda à quinta-feira, das 08h às 12h e de 14h às 18h.
O CVV - Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, através do número 141.

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